Cláudia de Lira
Da equipe do Amigos
É estranho o modo como se comportam algumas pessoas diante de histórias de relações homoafetivas. Há os intolerantes, que simplesmente não admitem que duas pessoas do mesmo sexo se curtam, e optem por viver uma grande história de afeto. Mas como nada é absoluto nesse mundo há, por sorte, os indulgentes, que conseguem ‘aceitar’ o fenômeno.
Porém, mesmo dentre estes, observo uma questão interessante: as mulheres tendem acolher as relações homoafetivas, sem demonstrar ojeriza, quando estas ocorrem entre pessoas do sexo masculino. Todavia, se a afinidade ‘rola’ entre mulheres, a repugnância aparece. Com os homens a realidade é diversa: vejo que muitos manifestam certo pavor em aceitar a relação de dois ‘machos’, mas não demonstram o mesmo sentimento se a ‘história’ ocorre entre mulheres.
Ontem, jantando com alguns ‘conhecidos - homens e mulheres – entabulávamos uma conversa que me levou a relatar o caso duas professoras cariocas que viveram em união homoafetiva por 11 anos, tendo uma delas obtido declaração judicial sobre a existência dessa relação, e o conseqüente reconhecimento do direito à herança do ‘casal’.
A partir daí, o diálogo, antes sereno tomou outra direção. Agitação e intranqüilidade entre os interlocutores ganharam espaço, e identifiquei no grupo as duas posturas que acima apontei: as mulheres revelavam-se intolerantes e os homens flexíveis ante a história de afeto das cariocas.
De algumas das mulheres escutei frases absurdas, reveladoras de discriminação dissimulada, e de velado preconceito. Manifestações do tipo: ‘eu não tenho nada contra, mas não quero saber disso perto de mim’; ou, ‘eu não me importo, até me relaciono se for preciso, mas não faço nenhuma questão de tratar com gente assim’; ou, ‘tudo bem, mas fora da minha casa’.
Os homens, contudo, não manifestavam essa repulsa. Mas, provocativa, perguntei o que eles achariam fosse o romance entre dois homens. As reações, creiam, não foram diferentes daquelas das mulheres. Curioso. E incompreensível.
Contra-argumentei, tentando desfazer essa curiosa diferença. Afirmei que a vida é um exercício diário de tolerância. E que independentemente do sexo, as pessoas têm o direito de buscar a felicidade, esteja onde, e com quem essa alegria estiver. Não fui ‘feliz’. Acho que não os sensibilizei.
O extremismo e a intransigência desaparecem do caminho quando a realidade bate à porta. Todos os que dividiam o jantar comigo são filhos, pais e, talvez, avós, um dia. Oxalá sejam eles menos absolutos, se algum dia precisarem conviver com essa realidade que a alguns tanto amofina.
Fonte: Amigos de Pelotas